
Sento-me na esplanada, sozinho, olho em volta e volto a olhar para o infinito horizonte e de novo para mim, chega a empregada de mesa, "boa tarde que vai desejar" "um fino se faz favor", espero e continuo a olhar para o nulo infinito, chega finalmente a minha cerveja, "quanto é?" "um e quarenta" "obrigada" "obrigado". E volto eu aos meus pensamentos aos meus pesadelos, medos e desesperos, encosto a mão ao copo ainda gelado e tomo um gole, um gole amargo de cerveja, pego no meu último cigarro "tenho de ir comprar mais", acendo-o e sinto o quente fumo a entrar-me pela boca, mais um golo de cerveja mais um travo de cigarro, uma e outra vez e outra, até sentir o calor do cigarro quase a queimar-me os dedos, apago o cigarro, olho para o copo e está quase vazio, vazio e sujo, como se reflectisse o seu observador, o seu observador egoísta que não consegue compreender os outros e quer ser compreendido, o mesmo homem que se sente só e mesmo assim continua a fechado dentro do seu casulo, o homem que não consegue compreender que não é só ele que necessita de apoio, o homem incapaz de ver que os outros não podem deixar toda a sua vida para trás por sua causa, o homem que tem de compreender que por vezes os seus amigos não o podem apoiar embora seja essa a sua vontade. Dou um último gole e sinto o sabor amargo da cerveja e do cigarro na minha boca, mas não me importo, não o sinto. Olho para o relógio e levanto-me penosamente da cadeira, entro para o café e dirijo-me à máquina de tabaco, uma moeda e mais uma e uma última, mais vinte cigarros, menos algumas horas de vida. Entro para o carro, ligo o rádio o mais alto que posso, com uma música alegre demais para o meu estado, meto-me na estrada, abro o vidro e sinto o vento a acariciar a minha pele, a despentear-me, a levar todas as minhas tristezas com ele. Chego ao meu destino, quinze minutos de conversa fiada e mórbida e por fim despeço-me com um simples "até à próxima", mais dois minutos e cheguei finalmente a casa, e foi então que bastou o sorriso de uma criança e as suas palavras "o sr. quer que o ajude" para finalmente eu também sorrir. Bastou um simples gesto de um estranho, ironia do destino talvez, para me acordar deste estado. Afinal a vida é bem mais simples do que dizemos, nós é que a complicamos, e com o passar dos anos vamos perdendo esse sorriso de criança, essa inocência, essa falta de preocupação, essa coragem e essa confiança de que nunca estaremos sós, pois temos sempre alguém com quem contar. Temos sempre aqueles que amamos presentes, se não for fisicamente será no nosso pensamento e no nosso coração, porque se preocupam e porque nos querem ver sorrir novamente.

1 comentário:
calhei no teu blog por acaso, li e gostei muito do teu texto. revi-me nas tuas palavras mas hj envio um abraço de força pois as páginas do livro da vida são muitas, tens apenas de saber decifrá-las! eu consegui!
Enviar um comentário